Relacionamentos: quando estar com o outro se torna difícil

Medo do abandono, dificuldade em confiar, limites, conflitos que se repetem. Padrões relacionais e vinculação sem rótulos. Carcavelos, Cascais, e online.

As relações próximas podem ser uma das maiores fontes de apoio, intimidade e pertença. Mas também podem tornar-se lugares de sofrimento, insegurança, conflito ou dúvida.

Por vezes, aquilo que custa não é uma relação específica. É perceber que determinadas dificuldades parecem surgir repetidamente: medo de ser abandonado, dificuldade em confiar, necessidade constante de confirmação, tendência para se afastar quando alguém se aproxima demasiado, dificuldade em colocar limites ou conflitos que acabam por seguir caminhos semelhantes.

Quando isto acontece, é fácil concluir: «O problema sou eu.» Ou, pelo contrário: «Escolho sempre as pessoas erradas.» Na maioria das vezes, a realidade é mais complexa — a forma como nos relacionamos resulta da interação entre aquilo que trazemos para uma relação, aquilo que o outro traz, aquilo que acontece entre ambos e o contexto em que a relação se desenvolve.

Por isso, compreender dificuldades relacionais não é procurar um culpado. É perceber o que acontece na relação, como cada pessoa responde e o que pode ser diferente.

Como as dificuldades nos relacionamentos se podem manifestar

Não existe uma única forma de ter dificuldades nas relações. Pode reconhecer, por exemplo:

Nenhum destes comportamentos, isoladamente, permite fazer um diagnóstico psicológico. São experiências relacionais que podem ter origens e significados muito diferentes de pessoa para pessoa.

Porque é que alguns padrões parecem repetir-se?

Quando uma dificuldade surge em várias relações, é natural querer perceber de onde vem. Mas não existe uma única explicação: aquilo que espera dos outros e a forma como responde à proximidade, à distância, ao conflito ou à incerteza desenvolvem-se ao longo da vida.

As experiências familiares e relacionais precoces podem ter importância — mas não são as únicas. Relações amorosas anteriores, rejeições, perdas, experiências de confiança ou de traição, acontecimentos difíceis e as relações que constrói na vida adulta também podem modificar a forma como se relaciona.

Por isso, não parto da ideia de que, se existe uma dificuldade numa relação atual, a explicação terá necessariamente de estar na infância.

Pode estar.

Pode ser apenas uma parte da explicação.

Ou pode ser pouco relevante para aquilo que está a acontecer agora.

O importante é perceber que padrões estão efetivamente presentes — e o que os mantém nas suas relações atuais.

Dois novelos de lã, um terracota e um creme, com os fios entrelaçados sobre uma mesa de madeira junto a uma janela

Vinculação: um enquadramento útil, não um rótulo

A teoria da vinculação é uma das formas cientificamente estudadas de compreender diferenças na forma como os adultos vivem as relações próximas. Na investigação sobre vinculação adulta são frequentemente consideradas duas dimensões:

Ansiedade de vinculação

Preocupações sobre rejeição, abandono ou disponibilidade do outro. Quando é elevada, pode existir maior necessidade de proximidade ou confirmação e maior sensibilidade a sinais de possível afastamento.

Evitamento da vinculação

Desconforto perante dependência emocional, proximidade ou vulnerabilidade. Quando é elevado, pode existir maior tendência para valorizar a autossuficiência, evitar depender do outro ou afastar-se em momentos de maior proximidade ou conflito.

A investigação mostra que níveis mais elevados de ansiedade e evitamento estão, em média, associados a menor satisfação nos relacionamentos — tanto para a própria pessoa como, em menor grau, para o parceiro.

Vinculação não é uma sentença sobre quem a pessoa é.

Não existem apenas quatro tipos rígidos de pessoas. As características de vinculação são melhor compreendidas como dimensões: podem variar entre relações e mudar ao longo do tempo. Dizer «sou ansioso» ou «sou evitante» pode ajudar a reconhecer tendências — mas não deve transformar-se numa identidade que explica tudo o que acontece consigo ou numa relação.

A relação atual também importa

Quando se fala de vinculação ou de padrões relacionais, há um risco: olhar apenas para aquilo que uma pessoa traz consigo e esquecer aquilo que acontece na relação real. As relações são sistemas de influência mútua — a forma como o outro responde à necessidade de proximidade, à vulnerabilidade, à distância ou ao conflito também pode aumentar ou diminuir determinadas inseguranças.

Isto significa que uma reação não deve ser analisada fora do contexto:

Sentir insegurança numa relação

Não significa necessariamente «ter vinculação ansiosa». A outra pessoa pode estar efetivamente distante ou inconsistente.

Ter dificuldade em confiar

Não significa necessariamente que o problema esteja no passado. Pode ter havido uma quebra real de confiança.

Sentir necessidade de se proteger

Não significa automaticamente ter dificuldade com intimidade. Pode estar numa relação em que não se sente emocionalmente seguro.

Em consulta interessa distinguir uma coisa da outra.

Comunicação, conflito e limites

Não ter conflitos não é um critério de uma relação saudável. Pessoas próximas vão inevitavelmente discordar, frustrar-se e ter necessidades diferentes. O que importa é também o que acontece quando essas diferenças aparecem:

Algumas pessoas calam aquilo de que precisam para evitar conflito.

Outras insistem cada vez mais quando sentem o outro a afastar-se.

Outras retiram-se quando a conversa se torna emocionalmente intensa.

E é possível que estes comportamentos se alimentem mutuamente:

Um procura mais proximidade → O outro sente necessidade de distância → A distância aumenta → A procura de confirmação cresce — e o ciclo recomeça.

Duas formas diferentes de lidar com a insegurança a produzir um ciclo que nenhuma das pessoas escolheu — e que prejudica ambas.

Identificar esse ciclo pode ser mais útil do que discutir repetidamente quem começou.

Colocar limites não é afastar os outros

Algumas dificuldades relacionais não surgem porque existe medo de proximidade. Surgem precisamente porque se torna difícil perceber onde termina a necessidade do outro e começa a sua.

Pode custar dizer que não.

Pedir espaço.

Discordar.

Expressar desagrado.

Dizer aquilo de que precisa.

Ou aceitar que alguém possa ficar desapontado consigo.

Quando estabelecer um limite é vivido como risco de rejeição, conflito ou perda da relação, é compreensível que seja mais fácil adaptar-se. O problema surge quando essa adaptação é tão frequente que deixa pouco espaço para saber aquilo que quer, sente ou precisa.

Trabalhar limites não é aprender a afastar pessoas. É poder estar numa relação sem ter de desaparecer dentro dela.

Porta antiga de madeira entreaberta num corredor tranquilo, com uma faixa de luz quente sobre o chão

Nem todos os problemas numa relação são «padrões relacionais»

Esta distinção é particularmente importante. Há relações em que existe conflito, comunicação difícil ou padrões de aproximação e afastamento que podem ser trabalhados. Mas existem também relações onde há:

Nestes casos, não é adequado reduzir aquilo que acontece a «problemas de comunicação» ou à contribuição de ambas as pessoas para um padrão. Quando existe violência ou controlo coercivo, a prioridade é a segurança e a avaliação do risco, e pode ser necessário apoio especializado — as orientações clínicas recomendam que a violência na intimidade seja identificada e abordada de forma específica, sem responsabilizar quem a sofre pelo comportamento de quem exerce violência ou controlo.

Compreender padrões relacionais nunca deve significar normalizar abuso.

Como pode ser trabalhado em consulta

O acompanhamento começa por compreender aquilo que está efetivamente a acontecer nas suas relações. Não parto do pressuposto de que existe um padrão — e, se existe, não parto do pressuposto de que sei de onde vem.

Podemos explorar

O trabalho pode passar por

A relação terapêutica também pode fornecer informação importante: aquilo que é difícil fora da consulta — confiar, discordar, pedir, estabelecer limites, mostrar vulnerabilidade — pode, por vezes, aparecer também aqui. Quando acontece, pode ser compreendido e trabalhado num contexto diferente daquele em que habitualmente se repete.

Psicoterapia individual ou terapia de casal?

Depende da dificuldade e daquilo que procura.

Psicoterapia individual

Pode fazer sentido quando quer compreender:

Pode vir sozinho mesmo que parte da dificuldade esteja numa relação a dois.

Terapia de casal

Pode fazer mais sentido quando a principal dificuldade está na interação entre ambos, os dois querem trabalhar a relação e é necessário observar e modificar padrões que acontecem entre o casal.

Se durante a avaliação percebermos que este formato responde melhor àquilo que procura, falo consigo sobre essa possibilidade e sobre uma eventual referenciação.

Há um limite importante: num acompanhamento individual só conheço diretamente a sua experiência. Não é possível avaliar clinicamente o seu parceiro, determinar as suas motivações ou concluir aquilo que acontece na relação inteira apenas através do relato de uma das partes.

Duas cadeiras de madeira com almofadas de linho, ligeiramente voltadas uma para a outra, numa sala luminosa

Os padrões relacionais podem mudar?

Podem.

Mas reconhecer um padrão não significa que ele desapareça automaticamente.

Uma reação que se repete há muito tempo pode ser rápida, familiar e surgir precisamente nos momentos em que se sente mais vulnerável. A mudança passa muitas vezes por conseguir perceber mais cedo aquilo que está a acontecer e criar algum espaço entre aquilo que sente e aquilo que faz a seguir. Também passa por ter experiências relacionais diferentes — a investigação sobre vinculação adulta mostra simultaneamente alguma continuidade e possibilidade de mudança ao longo da vida e da psicoterapia.

O passado pode ajudar a compreender. Não precisa de determinar aquilo que acontecerá a seguir.

Quando pode fazer sentido procurar apoio

Pode fazer sentido procurar acompanhamento quando percebe que:

Não é necessário que exista uma relação em crise para trabalhar a forma como se relaciona. Por vezes, procurar compreender estes padrões antes de entrar novamente neles já é uma razão suficiente para começar.

Perguntas frequentes

O problema sou eu?

Uma relação não pode ser compreendida apenas perguntando quem é «o problema». Há comportamentos pelos quais cada pessoa é responsável, mas as dificuldades relacionais resultam frequentemente de uma combinação de fatores individuais, características do parceiro, acontecimentos da relação e padrões de interação entre ambos.

Em consulta podemos compreender a parte sobre a qual tem influência: aquilo que sente, interpreta, faz, aceita, comunica e escolhe. Isso não significa assumir responsabilidade pelo comportamento de outra pessoa.

Faz sentido vir sozinho se o problema é a dois?

Sim. Num acompanhamento individual é possível trabalhar aquilo que está a acontecer consigo dentro da relação — os seus limites, medos, necessidades, comportamentos, decisões e padrões. O que não é possível é fazer terapia à relação inteira sem a presença da outra pessoa.

Se a dificuldade for predominantemente do casal e ambos quiserem trabalhá-la, uma terapia de casal pode ser uma opção mais adequada.

Escolho sempre o mesmo tipo de pessoa?

Nem sempre. Quando encontramos semelhanças entre várias relações, é tentador concluir que «escolhemos sempre a mesma pessoa». Mas a repetição pode estar em diferentes lugares: naquilo que procura, naquilo que tolera, naquilo que interpreta, na forma como reage, na dinâmica que se estabelece — ou numa combinação destes fatores.

É preciso conhecer as relações concretas antes de concluir que existe um padrão de escolha.

Tenho de falar da minha infância?

Não necessariamente. As experiências precoces podem ser relevantes para compreender determinadas expectativas ou respostas relacionais, mas uma dificuldade atual não é automaticamente explicada pela infância.

Começamos pelo que está a acontecer hoje e vamos à história quando isso ajuda a compreender melhor o presente.

É possível mudar padrões que tenho há muitos anos?

Sim, embora normalmente não aconteça apenas por se perceber intelectualmente de onde vieram. O trabalho implica reconhecer os padrões à medida que acontecem, compreender a função que tiveram ou ainda têm e experimentar respostas diferentes em contextos reais.

A investigação sugere que os padrões de vinculação apresentam alguma estabilidade, mas também capacidade de mudança ao longo da vida e durante a psicoterapia.

Esta página tem caráter informativo. Dificuldades nos relacionamentos, medo do abandono, dificuldade em confiar ou outros padrões relacionais não permitem, por si só, estabelecer qualquer diagnóstico psicológico. A avaliação deve considerar a história, o contexto e as características da relação atual.