Quando o passado não passou

Experiências difíceis que continuam a pesar hoje. Psicologia clínica em Carcavelos, Cascais, e online. O primeiro passo nunca é falar do que aconteceu.

Há experiências que ficam. Não como memória que se conta, mas como algo que o corpo continua a reviver — em reações desproporcionadas, em evitamentos que não se explicam, em partes da vida que ficaram em suspenso.

Não ter conseguido ultrapassar não é falta de força. É a forma como a mente protege daquilo que na altura foi demasiado.

Se alguma coisa disto lhe soa familiar

Trauma não é só o que se vê nos filmes

Não é preciso ter estado numa guerra ou num acidente. Uma relação onde se viveu com medo, uma infância em que era preciso estar sempre a antecipar o humor de alguém, uma perda que ninguém acompanhou, uma humilhação repetida — tudo isso deixa marca, e nenhuma delas costuma ser reconhecida como suficientemente grave.

O que define não é a gravidade do acontecimento vista de fora. É o que ficou por processar.

Porque é que falar sobre isso pode piorar

Há uma ideia comum de que desabafar faz bem. Com experiências traumáticas, contar sem preparação costuma fazer o contrário: reactiva sem resolver, e a pessoa sai da conversa pior do que entrou.

É por isso que a ordem do trabalho importa mais aqui do que em qualquer outra área.

O que fazemos em consulta

O primeiro passo nunca é falar do que aconteceu. É construir segurança suficiente para que isso venha a ser possível sem voltar a magoar — reconhecer os sinais de activação, ter formas de regressar ao presente, perceber o que dispara o quê.

Só depois, e ao seu ritmo, se trabalha a experiência em si. Nada é forçado. Reviver sem preparação não trata, retraumatiza.

Quanto tempo demora depende muito do que aconteceu e de há quanto tempo. A fase inicial, de estabilização, é sempre a mais importante — e é a que costuma ser saltada quando se tem pressa.

Perguntas frequentes

Vou ter de contar tudo?

Não. Nem na primeira consulta nem em nenhuma antes de haver condições para isso. Decide o que conta e quando, e há trabalho útil a fazer muito antes de chegarmos aí.

Aquilo que me aconteceu foi há muitos anos. Ainda vale a pena?

O tempo por si só não resolve o que ficou por processar — é comum que algo de há vinte anos continue a organizar as reações de hoje. Não há prazo de validade para trabalhar isto.

E se eu não me lembrar bem do que aconteceu?

É frequente, e não é impedimento. As lacunas de memória fazem parte da forma como a mente protege. Trabalha-se com o que há — incluindo com o que o corpo se lembra e a cabeça não.